A agricultura está a transformar-se, e o Instituto Superior de Agronomia (ISA) acompanha essa mudança com a atualização dos seus cursos e métodos de ensino. António Guerreiro de Brito, presidente do ISA, explica como a digitalização e a inovação pedagógica estão a preparar os futuros profissionais para os desafios do setor. Além disso, reflete sobre a concorrência internacional, a necessidade de maior investimento na investigação e o papel das universidades na atração de jovens para uma agricultura mais tecnológica e sustentável.
ENTREVISTA A ANTÓNIO GUERREIRO DE BRITO PRESIDENTE DO ISA
O setor agrícola tem evoluído significativamente. No caso do ISA, como se tem modernizado para acompanhar estas mudanças?
O setor agrícola tem evoluído, sem sombra de dúvida. Só quem anda distraído pode não perceber isso. No ISA, essa evolução tem sido acompanhada por várias reformas estruturais e pedagógicas. Nos últimos anos, fizemos uma modernização profunda dos nossos cursos. Há dois anos, atualizámos as licenciaturas e, no ano passado, reformulámos os mestrados. Esta reforma teve um foco especial na digitalização, pois o mundo agrícola está cada vez mais tecnológico e os profissionais do futuro precisam de estar preparados para essa realidade. Além disso, enfrentamos novos desafios na aplicação de fito fármacos e fitossanitários, bem como na horticultura e fruticultura. As exigências dos consumidores e das autoridades reguladoras em termos de qualidade e segurança alimentar são cada vez maiores. Isso exige profissionais altamente qualificados e capazes de responder a estas novas realidades.
O ISA tem ajustado os métodos de ensino para res ponder às novas exigências do setor?
Sim, essa foi outra mudança essencial. O método tradicional, em que o professor expõe a matéria e os alunos absorvem passivamente, já não é suficiente. Hoje, privilegiamos um ensino mais prático, baseado em projetos e na experimentação. Queremos que os nossos alunos aprendam fazendo, porque é isso que o mercado exige. A parte experimental tem um papel fundamental na formação de um engenheiro agrónomo. No entanto, é preciso encontrar um equilíbrio. Há aspetos práticos que os alunos só aprendem verdadeiramente no terreno, nas empresas onde vão trabalhar. As empresas fazem também a sua parte na formação dos recém-licenciados, sobretudo nos primeiros meses. Por isso, a nossa prioridade é dar aos alunos uma base científica e técnica sólida. Disciplinas como matemática, física e química continuam a ser fundamentais, porque são essas que estruturam o raciocínio e preparam os alunos para lidar com os desafios mais complexos da profissão.
A agricultura enfrenta um desafio geracional. Como podem as universidades incentivar os jovens a ingressar nesta área?
A escolha de um curso universitário depende de vários fatores. Os jovens perguntam-se: “Se seguir este curso, terei um bom emprego? Serei bem remunerado? A universidade dá-me as ferramentas certas?” A resposta a estas perguntas é positiva no caso da agricultura. Os nossos alunos têm uma elevada taxa de empregabilidade. Nos últimos cinco anos, os salários na área agrícola têm vindo a subir, refletindo a crescente valorização dos profissionais do setor. Além disso, a agricultura de hoje já não é a mesma dos nossos avós. É um setor altamente tecnológico, ligado à sustentabilidade, à inovação e à gestão eficiente dos recursos naturais. Mui tos jovens preocupam-se com as alterações climáticas e com a preservação do ambiente. Ora, a agricultura e os recursos naturais são áreas que permitem fazer a diferença nesse sentido. O problema é que, muitas vezes, esta mensagem não é comunicada de forma eficaz. Os aspetos negativos ganham mais destaque do que os positivos. Mas a verdade é que a agricultura é uma profissão do futuro, com oportunidades reais.
O ensino agrícola em Portugal deveria ter maior apoio do Estado, sobretudo na investigação?
Esta é uma questão complexa. O ISA é uma instituição pública, o que significa que a nossa missão é prestar um ser viço público de qualidade. Mas para isso, precisamos de condições adequadas. O financiamento público cobre menos de 50% da nossa atividade. A outra metade vem de projetos de investigação e de receitas próprias que conseguimos gerar. Isso exige que sejamos cada vez mais autónomos e eficientes na captação de financiamento externo. O apoio do Estado é essencial, não apenas através do Ministério do Ensino Superior, mas também do Ministério da Agricultura e de outras entidades governamentais. A investigação científica, em particular, precisa de um investimento contínuo para que possamos desenvolver soluções inovadoras para os desafios do setor