E m várias regiões do país, a chuva regressou, criando a ilusão de que os problemas da água na agricultura foram resolvidos. Contudo, a realidade é outra: mesmo com chuva abundante, é imperativo continuar a agir de forma proativa para garantir uma produção agrícola eficiente e sustentável, desperdiçando menos água.
A Península Ibérica encontra-se entre as regiões do mundo mais vulneráveis às alterações climáticas. Os modelos climáticos indicam mudanças profundas no ciclo hidrológico, com efeitos significativos na precipitação, especialmente no Sul, onde já enfrentamos uma severa escassez de água. As previsões mais pessimistas apontam para uma redução de até 30% na precipitação até 2050, o que terá impactos devastadores na capacidade produtiva. Estas alterações não afetam apenas a quantidade de água disponível mas, também, a sua distribuição ao longo do ano, intensificando períodos de seca e sobrecarregando infraestruturas existentes, com fortes precipitações em curtos períodos de tempo. Preparar-se para este cenário é mais do que uma necessidade - é uma obrigação, para garantir a resiliência do setor agrícola e das comunidades que dele dependem.
Paralelamente, projeta-se que o crescimento da população mundial atinja 9,7 mil milhões de pessoas em 2050, o que representa um acréscimo de 1,5 mil milhões em relação a 2023. Este aumento traduz-se numa maior procura por alimentos, matérias-primas e recursos naturais.
No entanto, e muitas vezes, o discurso político omite a ver dadeira dimensão do problema. É comum ouvir-se dizer à população para não se preocupar, que existe água sufi ciente para consumo humano por dois anos, mas raramente se menciona que 70% da água consumida é direcionada à agricultura. Este facto evidencia a dependência crucial da produção alimentar em relação aos recursos hídricos. Sem água, não produzimos alimentos; sem alimentos, compro metemos a nossa segurança alimentar. No Algarve, os agricultores já sentem na pele os efeitos desta realidade. Cortes significativos no fornecimento de água têm colocado explorações agrícolas sob grande pressão. Recente mente, uma produtora de citrinos partilhava as dificuldades em gerir um pomar com uma redução de 25% na alocação de água. Cortar a água pode ser necessário, mas fazê-lo sem oferecer alternativas viáveis para uma produção mais eficiente é condenar os produtores a um futuro incerto.
As práticas agrícolas têm um papel essencial na gestão eficiente da água, por exemplo, aumentar o teor de matéria orgânica no solo não só melhora a fertilidade, como também aumenta a capacidade de retenção de água. Um aumento de 1% no teor de matéria orgânica pode reter entre 18 e 20 m³ de água por hectare, reduzindo a necessidade de rega suplementar.
Outra prática eficaz é a cobertura do solo, que pode ser feita com telas ou coberturas vegetais. Estas estratégias ajudam a reduzir a evaporação, preservando até 30% da água disponível. Embora tenham um impacto significativo, estas práticas requerem uma mudança de mentalidade por parte dos produtores, o que nem sempre é fácil de conseguir. Apesar das limitações impostas pelas alterações climáticas, a construção de infraestruturas adequadas pode mitigar os seus efeitos. Sistemas de drenagem, que canalizem água para charcas e reservatórios permitem armazenar a água das chuvas, reduzindo a dependência de aquíferos.
Além disso, grandes infraestruturas de retenção, como barragens ou açudes, podem desempenhar um papel crucial na regulação dos caudais, respondendo durante os períodos de maior escassez e servindo de retenção nos períodos de grande pluviosidade, que se fazem sentir cada vez mais. Estas soluções, embora eficazes, implicam elevados custos de investi mento, tanto para produtores como para o setor público, e dependem da disponibilidade de precipitação. A tecnologia oferece uma oportunidade única para melhorar a eficiência hídrica na agricultura. Sistemas avançados de rega e ferramentas de monitorização permitem aplicar água diretamente onde é necessária, minimizando desperdícios. Sensores, tanto de medição da humidade no solo, como de medição do estado hídrico da planta são fundamentais, ali mentando, com dados, as plataformas de suporte à decisão que ajudam a otimizar o momento e a duração da rega, maximizando, assim, a utilização da água disponível.
DRI: Uma Solução Inovadora em Regas Subterrâneas
A nível pessoal, tenho procurado dar o meu contributo para a solução da escassez de água, introduzindo a solução DRI em Portugal e na Europa. Ao encontrar esta solução a motivação foi simples: permitir produzir com menos água e sem impacto na produção. A Deep Root Irrigation (DRI) é, na minha opinião, uma das soluções mais promissoras no campo da tecnologia. O dispositivo - desenvolvido há 15 anos por Jeff Ciudaj - foi concebido para fornecer água diretamente às raízes das plantas, eliminando perdas por evaporação e garantindo uma maior eficiência. Em Portugal, a DRI já está a ser utilizada por mais de uma dezena de produtores e tem mostrado resultados notáveis. Estudos realizados pela Universidade do Algarve revelaram que esta tecnologia reduz o consumo de água em cerca de 50%, sem comprometer a produtividade. Além disso, promove plantas mais resilientes à seca e minimiza o impacto ambiental associado à irrigação tradicional.
Benefícios da DRI:
1. Redução do Consumo de Água: dependendo da tipologia do solo, a redução do consumo de água situa-se entre os 30% e os 60%;
2. Aumento de Produtividade: vários estudos concluíram que a DRI contribui para o aumento de produtividade, fruto de uma maior e melhor eficiência no fornecimento de água e nutrientes à planta;
3. Redução de Custos e Emissões: com a DRI, é possível reduzir os custos associados à bombagem de água e ao consumo energético, diminuindo também as emissões de carbono;
4. Eficiência Nutricional: o sistema permite uma aplicação mais precisa de fertilizantes, reduzindo o desperdício e os impactos ambientais;
5. Controle de Pragas e Doenças: ao reduzir a humidade superficial, a DRI limita a proliferação de pragas, doenças e vegetação espontânea, diminuindo a necessidade de pesticidas e herbicidas..
Sabe-se que, se esta tecnologia for amplamente implementada nos 730 mil hectares de culturas permanentes de Portugal, o país pode economizar, anualmente, um volume de água equivalente a metade da capacidade do Alqueva.
É urgente que produtores, universidades, e autoridades públicas colaborem para adotar e expandir soluções como a DRI. A mudança exige coragem, mas os benefícios são inegáveis: maior resiliência, custos operacionais reduzidos e menor impacto ambiental. Portugal tem o potencial de liderar o Mediterrâneo em inovação agrícola - que este seja o ponto de partida para soluções sustentáveis que garantam água para todos e alimentos para o futuro.